DROGAS E AIDS
(Artigo publicado no livro - proibida a reprodução sem prévia autorização do autor.)
DROGAS NA ESCOLA: CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONSUMO E A PREVENÇÃO
Ana Regina Machado *
Considerações iniciais
Consumir é, em nosso tempo, algo que se apresenta como exigência; somos seduzidos e nos deixamos seduzir pelos objetos de um mercado sempre dinâmico e criativo. Colette Soler, no texto "El Síntoma en la Civilización", observa que nossa civilização é a civilização da ciência e dos objetos por ela produzidos; tais objetos parecem dar conta de nossos desejos... Há um mercado que parece realizar o "desejo dos sujeitos tomados um a um" . O consumo está de acordo com o nosso tempo.
Entretanto, há consumos que geram incômodos... Trabalhamos com "consumidores" de drogas e constantemente recebemos demandas de familiares, professores, pedagogos, psicólogos angustiados e aflitos querendo saber o que fazer com esse consumo indesejado.
Certamente é crescente e se torna cada vez mais complexa a presença de drogas nas sociedades contemporâneas. Joel Birman, em seu texto "Dionísios Desencantados", aponta a necessidade de se reestruturar teoricamente a problemática das drogas e diz que não há mais razão em se circunscrever aos toxicomanias nos campos da Farmacologia e da Psiquiatria. Há que se convocar outros campos do saber para se pensar e até mesmo intervir em situações decorrentes da presença ou do consumo de drogas. Birman põe em pauta a interdisciplinaridade... A cultura, os códigos e as linguagens próprias dos consumidores de drogas permitem considerações da Antropologia. As redes sociais formadas em torno da produção e do consumo de drogas e a violência a eles relacionada, a influência da rede internacional do narcotráfico na polícia e em instituições políticas trazem questões para a Sociologia, para a Ciência Política, bem como para os governantes. A Saúde Pública tem sido convocada a responder pelo sofrimento psíquico e físico dos que consomem regularmente drogas e que não mais se inserem no mercado de trabalho. A Psicanálise tem desenvolvido elementos teóricos e clínicos a partir da escuta dos impasses subjetivos daqueles que consomem drogas com intensidade e regularidade.
A presença cada vez mais efetiva do consumo de drogas no espaço social desencadeou a criação de instituições de tratamento, prevenção e pesquisa, como o Centro Mineiro de Toxicomania,instituição pública de saúde que privilegia o trabalho clínico com toxicômanos e que, mais recentemente, tem dispensado um certo interesse às áreas de pesquisa e prevenção.
Se os efeitos do consumo de drogas já exigiram medidas no campo da saúde, mais recentemente eles se fazem notar no campo da educação, e a necessidade de medidas está na ordem dia, como nos mostram os profissionais da área de ensino, a imprensa e as pesquisas epidemiológicas.
O consumo de drogas na escola
As drogas certamente já fazem parte do cotidiano escolar, fato que pode ser constatado tanto em escolas da rede pública quanto da rede privada e que vem sendo constantemente noticiado pela mídia. Em uma reportagem da revista Época de junho de 1998 fica evidente a necessidade de um novo posicionamento diante de tal questão; escolas, mesmo as mais tradicionais, que resistiam a revelar o uso de drogas em seu interior, têm buscado parcerias com especialistas para elaborar estratégias de intervenção em situações que envolvem o consumo de drogas por estudantes.
Levantamento realizado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, o CEBRID, em 1997, na cidade de Belo Horizonte em 1661 estudantes, revela que 24,1% dos estudantes da rede estadual de ensino já tiveram alguma experiência com drogas diferentes do álcool ou tabaco.
A tabela 1 apresenta a prevalência do uso de drogas, dividida em categorias entre estudantes de quatro faixas etárias.
TABELA 1 - Uso de drogas (exceto tabaco e álcool ) entre estudantes de 1º e 2º graus da rede estadual de Belo Horizonte, segundo categoria de usuários e idade (1997).
|
CATEGORIAS DE USUÁRIOS |
IDADE (ANOS) % |
| |
10-12 |
13-15 |
16-18 |
>18 |
NI* |
|
USO NA VIDA (1 vez na vida) |
9,4 |
20,0 |
33,3 |
28,6 |
21,8 |
|
USO NO ANO (1 vez no último ano) |
5,6 |
13,0 |
21,9 |
14,4 |
19,8 |
|
USO NO MÊS (1 vez no último mês) |
2,5 |
7,4 |
11,5 |
9,3 |
9,7 |
|
USO FREQÜENTE (6 ou mais vezes no último mês) |
0,5 |
2,2 |
4,9 |
4,4 |
4,9 |
|
USO PESADO (20 ou mais vezes no último mês) |
0,5 |
1,2 |
3,6 |
3,6 |
2,3 |
FONTE: CEBRID
* NI - Não informado
A tabela 2 apresenta as distintas drogas e a prevalência de seus usos, divididos em categorias.
TABELA 2 - Uso de drogas entre estudantes de 1º e 2º graus da rede estadual de Belo Horizonte, levando-se em conta as categorias de usuário e as diferentes drogas (1997).
|
DROGAS |
NA VIDA |
NO ANO |
NO MÊS |
FREQÜENTE |
USO PESADO |
| |
% |
% |
% |
% |
% |
|
MACONHA |
7,2 |
4,2 |
2,7 |
1,4 |
0,7 |
|
COCAÍNA |
2,4 |
1,7 |
1,0 |
0,3 |
0,2 |
|
ANFETAMÍNICOS |
3,6 |
2,6 |
1,3 |
0,5 |
0,5 |
|
SOLVENTES |
14,7 |
7,5 |
3,2 |
1,0 |
0,7 |
|
ANSIOLÍTICOS |
6,1 |
3,4 |
1,6 |
0,8 |
0,6 |
|
ANTICOLINÉRGICOS |
1,5 |
1,0 |
0,5 |
0,1 |
0,1 |
|
BARBITÚRICOS |
1,2 |
0,9 |
0,6 |
0,3 |
0,1 |
|
OPIÁCEOS |
0,4 |
- |
- |
- |
- |
|
XAROPES |
0,7 |
- |
- |
- |
- |
|
ALUCINÓGENOS |
1,1 |
- |
- |
- |
- |
|
OREXÍGENOS |
0,3 |
- |
- |
- |
- |
|
TOTAL DE USUÁRIOS |
24,1 |
15,3 |
8,4 |
3,3 |
2,3 |
|
TABACO |
34,3 |
21,4 |
14,0 |
6,1 |
4,4 |
|
ÁLCOOL |
76,7 |
64,1 |
42,1 |
15,5 |
7,0
|
FONTE: CEBRID
O consumo de drogas chega às escolas. Há uma certa crença em nossa sociedade de que "prevenir é melhor do que remediar". Mas, é possível prevenir tal fenômeno? Como já foi apontado, o consumo é uma característica do nosso tempo...
Pensando a prevenção
De acordo com a Psicanálise, teoria que norteia o trabalho clínico no Centro Mineiro de Toxicomania, as pessoas recorrem às drogas para amenizar o mal-estar inerente à vida. Sabe-se que o uso de drogas tem uma dimensão prazerosa, além de proporcionar uma independência desejável do mundo externo. É esta teoria que vai nos permitir, desde um primeiro momento, questionar o ideal de prevenção, ao apontar que o mal-estar é conseqüência de uma renúncia da satisfação pulsional, que funda a cultura e também o sujeito desejante. Dentro desta concepção, o mal-estar evidentemente não pode ser prevenido. Entretanto, sabemos que a droga não é o único recurso para lidar com o mal-estar... Fica, então, a pergunta: é possível prevenir a escolha do objeto droga como recurso para lidar com as insatisfações e angústias da vida?
Se a Psicanálise nos põe frente a esta questão, outras questões são apontadas por outros campos do saber. Jurandir Freire Costa, no texto "Saúde Mental: Produto da Educação?" , avalia os efeitos das práticas preventivas, de cunho pedagógico, desenvolvidas ao longo da história no campo da saúde mental e conclui que tais efeitos estão relacionados principalmente com a reprodução de uma ordem social. Ele constata o comprometimento político e ideológico de tais práticas e se refere ao surgimento de uma "competência psicológica", ou seja, as pessoas envolvidas nas práticas preventivas tornaram-se mais capazes de codificar o sofrimento psíquico, valendo-se de termos provenientes da psicologia ou psiquiatria, sem que isso diminuísse ou prevenisse qualquer sofrimento. Fazendo a transposição de tal conclusão para o fenômeno que nos interessa, o consumo de drogas, podemos pensar que com práticas de cunho eminentemente informativo não teríamos mais do que alunos capacitados, com uma certa competência para discorrer sobre drogas, sem que isso interferisse na possibilidade de evitar o consumo de drogas. Atualmente, muitos especialistas confirmam tal conclusão, dizendo que a informação não é suficiente para mudar comportamentos ou atitudes. Mas, voltando ao texto de Jurandir, onde se pode ler que o passado não nos mostra experiências eficazes no campo da educação com fins de prevenção, fica a dúvida sobre os efeitos de experiências futuras, não comprometidas com a reprodução das ideologias dominantes.
Em textos que tratam especificamente da prevenção ao abuso de drogas encontramos diferentes perspectivas: uma baseada na criação de um terror em torno das drogas, outras vinculadas à idéia de uma responsabilização das pessoas por seus atos e à melhoria da qualidade de vida. A seguir, listamos pontos básicos dessas diferentes perspectivas:
1) A prevenção baseada na repressão.
- A droga é o mal supremo, provoca a corrupção da alma e da sociedade ao destruir seus alicerces morais, cívicos e religiosos.
- O consumo de drogas é criado e incentivado por traficantes, à procura de lucro (o consumo de drogas não é contextualizado historicamente).
- O ideal de uma sociedade sem drogas (ou escola sem drogas) é realizável com a adoção de medidas adequadas, sobretudo de cunho repressivo.
- O grande mal são as drogas ilícitas, opta-se por não falar das substâncias lícitas, não menos nocivas e muito mais consumidas.
- Os bons cidadãos não usam drogas; quem usa, torna-se um marginal perigoso.
- A dimensão prazerosa da droga não é mencionada; opta-se por criar um terror em torno dos prejuízos advindos do consumo de drogas.
2) A prevenção baseada na educação preventiva.
- Tal concepção enfatiza a responsabilidade do usuário pelo controle do produto, que pode ser bom ou ruim, prazeroso ou prejudicial.
- O uso indevido de drogas deve ser entendido como um dos efeitos do mal-estar social decorrente de crises políticas, econômicas e de valores existenciais.
- A dimensão ética do consumo deve ser considerada; tal dimensão está intimamente ligada à responsabilidade da pessoa pelos seus atos, pela sua saúde, seu corpo, sua sexualidade, por sua condição de cidadão, enfim, pelas opções que faz.
- As mensagens devem ser transmitidas de maneira verdadeira, contribuindo para a formação do jovem e preparando-o para opções a serem tomadas na sua vida futura.
3) A prevenção na ética de uma ecologia humana.
- O consumo descontrolado de drogas é compreendido como uma das agressões ao homem, em meio a muitas outras, como a poluição, a vida urbana sedentária e estressante, o consumismo, as corridas armamentistas, a fome, o desemprego, o analfabetismo e a violência.
- Tal postura preventiva não pretende se limitar a exortar a abstinência das drogas, objetiva a formação de cidadãos lúcidos, capazes de enfrentar e de transformar a vida que a eles se apresenta.
- Uma boa qualidade de vida é a meta de tal concepção.
A primeira dessas perspectivas tem se revelado contraproducente. Pela imprensa, ficamos sabendo que os EUA. não economizaram dólares ao investir em programas preventivos de cunho repressivo, para estudantes, os quais se mostraram pouco efetivos. Nas outras duas perspectivas, podemos encaixar experiências isoladas que se têm mostrado frutíferas. Com freqüência, a imprensa tem noticiado projetos (Axé, Âncora, Mangueira ,ONG’s) que têm sido associados à diminuição de índices de violência e de envolvimento com o tráfico e o consumo de drogas.
Considerações finais
A impossibilidade preventiva apontada pela teoria psicanalítica e as experiências m pedagógicas mal sucedidas nos deixam mais "prevenidos" quanto ao alcance de um projeto preventivo. A presença mais complexa da droga no mundo contemporâneo nos faz pensar em várias enlaçamentos possíveis de alguém com a droga. Se ela é um recurso para lidar com o mal-estar, é também uma fonte de renda, uma perspectiva de vida...Para muitos, não há fixação neste enlaçamento. Sabemos que nem todos que experimentam drogas se tornam toxicômanos. Talvez para estes haja uma prevenção possível.
A erradicação de drogas do espaço escolar e de toda a sociedade não parece possível; as drogas fazem parte de nosso cotidiano...Um mercado mais estruturado e uma tecnologia mais avançada contribuem para uma oferta mais freqüente e mais variada desses produtos, as drogas, que sempre renovam a promessa de realização de uma satisfação completa, em vidas muitas vezes privadas de prazer.
Se não há como eliminar tal oferta, como torná-la menos atraente? Alguns especialistas apostam na melhoria da qualidade de vida como alternativa ao consumo de drogas. Fala-se em uma situação atual de carências múltiplas, materiais e/ou de significações afetivas que viria a favorecer a procura por drogas. O que fazer diante de tal quadro? Cabe à família e à escola a formação de jovens mais estruturados, mais responsáveis e mais independentes, que poderão melhor se posicionar diante dos problemas do mundo contemporâneo, entre eles, a oferta crescente de drogas. Cabe à sociedade, às suas organizações governamentais e não governamentais proporcionar à juventude perspectivas de vida outras que não as drogas. Algumas experiências recentes, como os projetos há pouco mencionados, têm-nos lembrado que isso é possível.
Referências bibliográficas
SOLER, Colette. El Síntoma en la Civilización. . Diversidad del Síntoma. Coleccion Orientácion Lacaniana. E.O.L.. p.91.
BIRMAN, Joel. Dionísios Desencantados. In: Drogas : Uma Visão Contemporânea - Rio de .Janeiro,Imago, 1993.
Perigo no Recreio: escolas assumem que tóxicos rondam seus domínios e partem para a briga. Revista Época - Rio de Janeiro, Globo, 15 jun. 1998. p36-41.
GALDURÓZ, José Carlos F. et alli. IV Levantamento sobre o uso de drogas psicotrópicas entre estudantes de 1º e 2º graus em 10 capitais brasileiras-1997. São Paulo, CEBRID, 1997.
COSTA, Jurandir Freire. Saúde Mental: Produto da Educação? in: Saúde em Debate. n. 11. CEBES, 1981.
BUCHER, Richard.Drogas e Sociedade nos Tempos da AIDS. Brasília, UNB,1996.
{ * ANA REGINA MACHADO - Psicóloga, especialista em Saúde Mental, Gerente do ambulatório do Centro Mineiro de Toxicomania/FHEMIG. }
DROGAS E AIDS - Prevenção e Tratamento
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