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DROGAS E AIDS
(Artigo publicado no livro - proibida a reprodução sem prévia autorização do autor.)


DROGAS: UMA SAÍDA POSSÍVEL PARA OS IMPASSES DA ADOLESCÊNCIA?
Sandra Mara Pereira *

O sujeito adolescente tem se apresentado de maneira instigante aos pais, educadores, profissionais e autoridades a fim de se inserir no mundo contemporâneo para conquistar o seu lugar.

Vivemos em um tempo onde há um culto ao "estilo adolescente de ser", numa apologia a liberação da droga e o adolescente se vê ofertado de modelos de identificação onde o uso de droga não é problema a não ser para os pais, para os professores, enfim para os outros...

Até os pais e nós mesmos, educadores, psicólogos, somos pegos por essa sedução sufocante de tornarmos "adultescentes", afinal estamos no tempo em que devemos nos manter jovens, com uma personalidade aberta às mudanças, com o corpo em forma, com o espírito descontraído, dançante, revigorante, totalmente independente e de bem com a vida! Ufa!!! Como os valores são contraditórios! Os jovens deparam-se com diversos modelos ofertados pela cultura, como por exemplo, o traficante: poderoso e rico, ganha a vida com dinheiro fácil, controlando as pessoas.

O que se passa com o sujeito adolescente no momento de iniciação ao uso da droga? O que determina a diferença entre usuário esporádico e o toxicômano? Qual o estatuto psíquico da droga para o sujeito adolescente?

O termo adolescente, etimologicamente, vem do latim adolescere que significa crescer, brotar, fazer-se grande. Adolescência surgiu no dicionário por volta de 1865 com o significado de passagem, momento.

Desde o primeiro momento de vida, somos dependentes da relação com o outro e assim permanecemos por muito tempo e, de certa forma, a vida toda.

A criança desde seu nascimento depende da mãe para sobreviver através dos cuidados, da alimentação, do afeto. A mãe ou a substituta materna é quem introduz a criança neste mundo através da linguagem.

A relação, a partir da linguagem, é que estabelece como cada um se vê. Isto marca um investimento de afeto, de sexualidade no filho a partir do olhar dos pais, desta forma as relações vão se constituindo, tornando-se mais complexas.

A criança é, inicialmente, "egoísta", exigindo satisfação imediata de seus desejos. Muitos pais não conseguem perceber a importância de se introduzir limites e cometem o equívoco de atenderem a todas exigências mantendo a ilusão que estão provando seu amor, não deixando "faltar" nada. Neste momento, perdem a possibilidade de transmitir aos filhos que o mundo nunca será como eles desejam, retardando a percepção de como o mundo é.

A criança tem nos pais todo o referencial do que quer ser, mas uma das características de nossa modernidade é a fragmentação da família: uma mãe que trabalha muito para sustentar a família; um pai que é ausente tanto fisicamente, quanto na sua função de possibilitar o sujeito a se estruturar de forma a ter algum recurso para lidar com os impasses de sua existência. Os valores, as referências, as bases de sustentação estão se modificando, trazendo conseqüências para o sujeito.

O pai, a mãe, enfim a família tem tentado transferir a responsabilidade de educar para os professores, educadores, instituições, juizes, conselhos tutelares, e outras instituições, como se pudessem terceirizar as funções familiares na educação dos filhos. Há uma pluralidade de figuras que se esvaziam na qualidade das relações. "O pai é eficiente quando é único"(1).

Dentro deste contexto, surge a adolescência com a característica fundamental do despertar - para o sexo, para o outro, para o trabalho, para a vida adulta cheia de escolhas, responsabilidades, frustrações, ilusões, amores e desamores.

Freud(2) compreende, sob o termo puberdade, tanto as transformações corporais quanto às transformações psíquicas que as acompanham. "A tese freudiana concernente à sexualidade é que ela não começa na puberdade", mas nesta fase há uma reedição das pulsões sexuais infantis a fim de separar os objetos sexuais e os pais. Os pais já não portam as respostas dos porquês. "Quando a puberdade chega traz consigo as fantasias que tem inicialmente como cena, a própria família, mas à medida que progride, o enquadramento familiar vai dando lugar a outras relações do sujeito com o mundo ambiente".

O adolescente saído da infância se depara com o real do sexo, despertado para esse encontro que é sempre mal-sucedido e traumático, deixando-o "sem palavras". O seu corpo se torna esquisito, desengonçado.

A angústia é o sentimento mais eminente; crises de tristeza, inibições, nervosismos e agitações são externadas em atos de intensa agressão, seja consigo mesmo, seja com o outro.

Fica evidente uma tendência a agir que faz apelo a lei para que possa dar uma contenção neste desnorteamento simbólico, possibilitando, assim, uma certa organização psíquica.

Se há crise na adolescência há também crise dos pais, pois estes não estão conseguindo responder os atos desvairados de seus filhos, que portam uma angústia de existir sem referências.

No Centro Mineiro de Toxicomania - FHEMIG, observamos situações graves no que toca a relação das drogas com os impasses da família na adolescência.

A adolescência sendo o período do desligamento da autoridade dos pais, exige um trabalho de elaboração onde é necessária uma referência familiar para que se possa superá-la, caso contrário, a base de sustentação é insuficiente para que se possa encontrar novas formas de existência no mundo. O "desligamento" deve advir do adolescente e não dos pais que se demitem de seu papel.

Atos como o suicídio, que é uma tentativa de apagamento de seu ser perante o mundo precipitador de um mal-estar aniquilador. Roubos e tráfico; o "ganhar" a vida fácil, com "adrenalina", colocando o ladrão e o traficante como modelos de identificação, como líderes ou heróis respeitados e temidos. Prostituição e gravidez precoce; o corpo como mercadoria na relação com o outro e a gravidez estabelecendo novo "status", afinal "ser mãe" lhe assegura um novo lugar.

Drogas; com o declínio dos ideais familiares e a conseqüente ruptura com os pais, o adolescente se vê tensionado a buscar uma inserção num grupo de amigos. E uma das formas disto acontecer é "experimentando" a droga.

O adolescente que inicia o uso de drogas não será visto como "paia", "careta", "boiola", mas estará "baseado" no outro, no colega, no amigo, que lhe oferecerá aquilo que procura: uma solução, mesmo temporária, para uma de suas questões - "Quem sou eu?" "Eu sou sinistro", "Eu sou cavernoso", "Eu sou maconheiro, viajante".

A tão sonhada independência dos pais passa ser confundida com o rompimento radical com o mundo, com os relacionamentos na escola, com as atividades esportivas, acaba por perder o interesse e a motivação.

Neste momento em que ele já não se submete às "obrigações", a droga lhe assegura o ato de se desligar dos outros.

"Já não agüentava tanta falação, lá em casa tem muito problema". (fragmento de um discurso de uma jovem de 15 anos, usuária de maconha e crack).

Uma outra função que a droga exerce e que podemos ouvir no discurso dos pacientes adolescentes, é o apaziguamento da angústia vivenciada na relação com o outro sexo.

"A mulher a gente nunca sabe... quando fumo um, aí isso não me incomoda. Prá falar a verdade, eu até esqueço de mulher". (fragmento de um discurso de um jovem de 16 anos, usuário de maconha).

Uma terceira atribuição dos adolescentes ao uso de drogas é a potência imaginária que esta comporta:

"Parece que quando a gente usa, a gente pode tudo, e quando tá de cara, fica sem coragem". (fragmento de um discurso de um jovem de 17 anos, usuário de cocaína).

Passa a haver uma atitude seqüencial: vender drogas, roubar para conseguir dinheiro para se drogar, arriscar-se em lugares perigosos, usá-la e sentir o êxtase... e recomeçar!

"Nem todos os adolescentes permanecem neste uso. Há os que se desembaraçam da droga por considerá-la um obstáculo, mais que um instrumento. Mas há os que se fixam aí"(3). Obstáculo para conseguir o que se pretendia com o uso da droga, ou seja, a droga passa a ser um empecilho da conquista de algo que se deseja muito.

"Parei porque com a maconha eu não viajava mais, ficava era meio abobalhado, e isso eu não quero".(fragmento de um discurso de uma jovem de 16 anos, ex-usuária).

Aqueles adolescentes que conseguem enxergar que seu prazer se direciona para outras formas de reconhecimento, conseguem deslizar e sair das drogas através do esporte, da música, do trabalho, e outras.

Já aqueles que se fixam, permanecem colados ao objeto, na infindável tentativa de se sentirem completos, realizados com o prazer e a satisfação implícitos no ato de se drogar.

Aquele que tem a droga como um instrumento que propicia o laço social, tem mais recurso simbólico para dar conta do objeto perdido e se posicionar nas situações que remetem a castração.

Já o toxicômano busca o objeto droga fora da mediação simbólica, fixando-se a uma posição de assujeitamento e gozo mortífero; onde o "pai real" será encarnado por policiais, traficantes, médicos, etc.

De um modo geral, os profissionais concordam que não é fácil o tratamento de adolescentes viciados em drogas, principalmente porque se trata de um sujeito que está diante de um momento de angústia onde deve reorganizar suas relações e sua posição frente ao mundo. Momento de divisão subjetiva onde ele poderá escolher:

  • Saber de seu desejo, de suas aspirações, do que quer para si, mesmo com toda a dificuldade que isso acarreta, tentando produzir uma história particular de sua existência.

  • Alienar-se, não querendo saber de seu desejo, participando artificialmente da construção de sua história, colocando-se sempre como alguém "embalista", que não apresenta muita expectativa de vida.

Os pais têm se perguntado pela "culpa" em relação ao fato do filho usar drogas. Como as drogas estão inseridas em nossa cultura e para os adolescentes estão colocadas como mais um produto de consumo, como um produto que lhe propiciará o que lhe falta - coragem, alegria, viagem, prazer, etc - talvez pudéssemos introduzir o termo "responsabilidade" .

Os pais, a escola , os educadores, o governo são responsáveis pela qualidade das ofertas de possibilidades de educação; ou seja, torna-se imprescindível a oferta de um leque amplo de opções de escolha na formação dos jovens. E o adolescente? Nessa perspectiva lógica, ele surge como um sujeito responsável pelas escolhas de sua vida, portanto deverá responder por suas atitudes com o apoio e carinho e segurança dos pais e educadores, a fim de estar ciente que se trata de sua história, de sua vida, de seu ideal.

Notas

(1) VIGANÓ, C. in Conferência sobre a adolescência em BH, 1999.
(2) Ver FREUD,S. in "Três Ensaios sobre a sexualidade", Rio de Janeiro, 1972.
(3) Ver LODI, M.I. in "Adolescência e Drogas. O sujeito na pós Modernidade". Belo Horizonte,1996.

Referência bibliográfica

COTTET, S. "Puberdade Catástrofe"; in Transcrição 4. Salvador, Fator ;1998.
FREUD, Sigmund; "Três Ensaios sobre a sexualidade", v. IV.E.S.B. Rio de Janeiro; Imago, l972.
ALBERTI, Sônia ; "Esse Sujeito Adolescente", Rio de Janeiro; Ed. Relume e Dumará, l995.
FREDA, Hugo; "O Adolescente Freudiano" - in; Adolescência: o despertar. E.B.P. Rio de Janeiro, Kalimeros, 1996.
LODI, Maria Inês; "Adolescência e Drogas. O sujeito na pós-modernidade".In; Subversão do Sujeito na Clínica das Toxicomanias. IX Jornada de trabalhos do Centro Mineiro de Toxicomania. Belo Horizonte, 1996.
ALBERTI, Sônia . Anotações pessoais da XII Jornada do CMT, 1999.
COSTA, Regina T. "Educação Infantil no mundo contemporâneo" in Estado de Minas, coluna: Em dia com a Psicanálise" - 12.07.98 - Belo Horizonte, pg. 4.

{ * SANDRA MARA PEREIRA - Psicóloga, com formação em Psicanálise, Terapeuta do Centro Mineiro de Toxicomania. Coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Toxicomania e Adolescência do CMT. Membro do Conselho Diretor da 3ª Margem Prevenção e Pesquisa em Toxicomania. }

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